Desde o surgimento da linguagem audiovisual, o cinema – e posteriormente a TV e a internet – tem buscando em outras manifestações inspiração para seus conteúdos. Novas narrativas podem surgir de baseadas num livro, numa música, numa peça de teatro ou mesmo numa notícia de jornal. É esse processo que recebe o nome de adaptação.
Quando se fala em adaptar, algumas frases são comumente repetidas. “O livro era melhor”, dizem alguns. “Destruíram a história!”, dizem outros. Mas a fidelidade, apesar de ser um quesito digno de nota, não deve ser o determinante para uma adaptação ser ou não bem-sucedida. Adaptar é a transição de narrativas para novas linguagens, e cada uma possui suas regras próprias, a qual a história precisa se adequar.
Um filme de duas horas, por exemplo, não permite uma infinidade de subtramas e provavelmente precisaria cortar muito material do texto-fonte. No entanto, se for um seriado com várias temporadas, a necessidade seria de ir além do original e criar novas histórias no mesmo universo.
Adaptar-se é um processo presente na vida de todos os seres vivos. Na natureza, os sobreviventes são aqueles que conseguem se adequar a cada novo ambiente, a cada novo meio. Charlie Kaufman e Spike Jonze brincam com esse raciocínio no metalinguístico Adaptação (2002). Na história, o próprio Kaufman - aclamado roteirista de Quero ser John Malkovich – é o protagonista, que está com dificuldades para adaptar para o cinema o livro reportagem O Ladrão de Orquídeas. “Não é um livro com uma aventura, um drama, é uma história em que não acontece nada. Como na vida real”.
Empacado, estourando todos os prazos, ele aceita a “humilhação” e procura um curso prático de roteiro de um dos mais famosos autores do gênero: Robert McKee, autor de Story, uma das bíblias dos roteiristas. McKee é sintético. “Num roteiro, os personagens precisam mudar. É preciso ter movimento. Se não, para que diabos você vai me fazer perder duas horas com seu filme?”.
O Kaufman da vida real incorpora isso em Adaptação. Ao invés de adaptar, ele resolve contar a história da criação da adaptação e nas palavras da própria autora do livro, a jornalista da New Yorker, Susan Orlean, conseguiu capturar o espírito da narrativa. E isso levando em conta um final em que o filme se resolve ignorando totalmente o final do livro. Ao escapar da realidade jornalística, Kaufman propõe uma conclusão que cria um romance entre repórter e sua fonte, um relacionamento temperado com drogas sintetizadas de orquídeas raras e assassinatos involuntários.Com todo esse movimento, ele fecha a história que apesar de irreal possui verossimilhança interna. Isso é adaptação.

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